quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Buzú e a buzanfa


Olá amigos e amigas. Sumi por alguns dias devido ao trabalho. Muita correria e muitas horas de sono perdidas. Mas estou de volta, pelo menos até o carnaval. Espero que vocês curtam mais essa história louca de coisas que só acontecem comigo e com quem tem a mesma "sorte" que eu.

Divirtam-se!

O carro quebrou e ficou na oficina por três dias. Tive que pegar um ônibus. Ôôôôôôôô sofrimento, véi! MEU DEUS, POR QUE ME DESAMPARASTE!!!

Pode parecer incrível como um motorista de taxi, por mais que conheça a cidade toda, quando se trata de pegar um ônibus fica totalmente perdido.


Pego o celular e ligo pra Lindinha:

- Lindinha, que ônibus eu pego daqui do Rio Vermelho pra poder chegar em casa? - perguntei com aquela vozinha de criança dengosa perdida no meio do nada, prestes a abrir o berreiro.

- Ô, filho! Se não sabe que ônibus pegar vai pra Lapa que lá tem buzú pra tudo quanto é bairro, né?

Tomei um chépo, enfiei o rabo entre as pernas e fui pra o ponto.

Demorou uns quarenta e cinco minutos pra passar um Lapa, vazio. Entrei e nem sabia o valor da passagem. Encostei no cobrador e perguntei meio envergonhado e baixinho, pois não queria parecer um arrogante, esnobe, que vive no mundo maravilhoso dos taxistas e nem sabe o valor de uma passagem de ônibus.

- Quanto que é a passagem, amigo? - perguntei bem baixinho. As pessoas me veriam como um ET se me ouvissem perguntando aquilo.

-  É DOIS REAIS E CINQUENTA. AGORA, PASSE LOGO QUE NÃO PODE FICAR AÍ NO CURRAL ATRAPALHANDO O CAMINHO NÃO!

Que ignorância, viu! Pedaço de jumento olhando pra parede, era aquele cobrador.

Passei, me sentei e a viagem seguiu.

Cheguei no infer... ééé, digo... Lapa, e tive que procurar o ponto exato pra o bairro onde moro. Demorei um pouco, mas encontrei. Quando cheguei tinha umas poucas pessoas esperando, o que me deixou animado em saber que pegaria um buzú vazio. Mas não demorou nem dez minutos e a fila foi aumentando, aumenTANDO, AUMENTANDO, AUMENTANDO, mas, pra minha sorte, eu era o décimo quarto ou décimo quinto da fila, ia conseguir um lugarzinho pra ir sentado fácil, fácil.


Meia hora de espera e chega o ônibus. Quando olhei pra trás a fila já estava quilométrica e com a chegada do buzú comecei a perceber um burburinho que foi aos poucos se tornando uma gritaria e aos poucos um desespero. Quando o ônibus parou no ponto já não existia mais fila nenhuma. A galera toda, de uma só vez, se amassando na porta do carro e eu alí espremido com minha cara de otário. Quando a porta do ônibus foi aberta então... Ao invés de eu ir pra frente em direção a porta, eu era cada vez mais empurrado pra trás. Até um cara que estava de muletas correu, sim ele correu não sei como e entrou pela porta da frente e sentou. Tinha velha, criança, mulheres, um cara com umas caixas na cabeça, uma menina cheia de sacolas, todo mundo brigando por um pedacinho de espaço pra por o pé na escada do ônibus e subir. E o buzú foi enchendo, enchENDO e ENCHENDO até que ficaram uns caras pendurados na porta. Um dos caras era eu. O motorista não queria arrastar o carro porque disse que com a porta aberta não poderia sair da estação. Como não cabia mais ninguém alí, eu desci. Ele fechou a porta, a galera foi lá toda espremida. e o carro foi embora.


Mais uma hora de espera até que chegou outro ônibus, mas dessa vez, milagrosamente, não tinha muitas pessoas no ponto, então foi mais tranquilo. Entrei "de boa" e até encontrei um lugar pra sentar. Ô, desgraça! Antes eu ficasse em pé mesmo.


Acho que os empresários de transportes coletivos de Salvador pensam  que estão em Itabaianinha. Pra quem não sabe, Itabaianinha é uma cidade do interior de Sergipe que fica a 120 quilometros da capital, Aracajú, ela é conhecida como a cidade dos anões por causa da grande quantidade de "pessoas verticalmente prejudicadas". - pra ser mais politicamente correto com os pintores de rodapés, tamboretes de brega, pilotos de autorama... nanicos.


Tentei me sentar, mas minhas pernas não cabiam naquele minúsculo espaço. Sentei de pernas abertas na cadeira da janela. Mas minha folga durou pouco. Quando olho pra o lado vejo uma senhora com uma buzanfa avantajada se sentando quase no meu colo. Me espremi o máximo que pude e fiquei ali sentado de ladinho com os joelhos roçando no banco da frente e sem poder me mexer pra lado nenhum. Mas o bom disso tudo é que quando você pensa que a coisa está ruim ela pode ficar ainda pior. E quando se trata de mim então... as coisas sempre ficam bem complicadas. A velha da buzanfa grande se sentou do meu lado e com o balanço do ônibus começou a cochilar e cair com a cabecinha por cima do meu ombro. Boca aberta e as porras. E eu alí sem poder me mexer sendo feito de travesseiro.


A cada ponto o ônibus ia enchendo mais e maIS e MAIS. Eu, pelo menos, estava sentado. Não que aquilo fosse de todo bom, porque eu estava em uma posição ruim com só meia banda de bunda encostada na cadeira, espremido, o ossinho do joelho doendo de tanto roçar no banco da frente e a buzanfa da velha quase em cima da minha perna e a velha dormindo em meu ombro e já começando a babar.


De repente, no banco atrás do meu, um camarada pega o celular e coloca um som de pagode a toda altura. Um tal de chore na minha, chore na minha. Por que que aquele porra não colocava o fone no ouvido? Por que tinha que me obrigar a ouvir aquilo? Mas tentei ver pelo lado bom. Com aquele barulho todo a velha acordaria. Que nada. A velha agora escorregava do meu ombro pra minhas costas. O dinossauro chegou até a ressonar.

Eu até queria sair dali, mas estava imobilizado. Me senti como um prisioneiro sendo torturado da forma mais sádica.


Pensa que acabou? Pois o miserê está só começando.


Em um dos pontos subiu um moleque vendendo balas, gritando dentro do carro com aquela voz enjoada e sem pontuação, e assim ele começou a ladainha:


- BOA-TARNE-PESSOAL-EU-TÔ-PEDINO-A-AJUDA-DE-VOCÊS-AQUI-PORQUE-EU-TÔ-VENDENO-BALA-PORQUE-EU-PODIA-TÁ-MATANO-ROBANO-ESTRUPANO-CHEIRANO-FUMANO-PEGANO-O-QUE-É-DUSÔTRO-MAS-COM-A-AJUDA-DE-DEUS-E-DE-VOCÊS-QUERO-BATAIÁ-FIRME-E-FORTE...


Que castigo, viu. O pagode no meu pé de ouvido, a ladainha do ex potencial trombadinha vendedor de balas (trombadinha não! Segundo minha mulher que é Assistente Social, é apenas um menor em conflito com a Lei) e uma velha da buzanfa grande roncando com a cabeça totalmente dependurada por cima de mim. Eu mereço.


O cara não conseguiu vender nem uma bala. Acho que ninguém se comoveu com aquela história toda. Ele desceu do ônibus revoltado, xingando a galera toda. Só que agora ele falava com um som meio anasalado:

- Essas miséra num ajuda ninguém, rapá. Depois quando a gente mete a porra inda acha ruim. - ele foi falando e descendo do onibus cheio de marra, cheio de gingado de malandro. Totalmente diferente de quando subiu. Quando subiu no ônibus ele estava com uma cara de coitadinho que dava dó (Acho que agora ele estava em conflito existêncial).


Eu fiquei impressionado com o sono daquela mulher. Ela não acordava de jeito nenhum. O camarada do celular já estava na terceira música e ela nada. A música agora era o foge, foge, superman. Eu, que estou mais pra Clark Kent, não pela beleza tímida, mas pela cara de otário mesmo, nem podia fugir daquilo ali.


Vocês lembram da velha que apareceu no meu aniversário naquela história do carro de mensagens? Não. Ela não estava no ônibus. Mas apareceu um outro irmão, no meio do buzú lotado, bradando pra todo lado. O cara levantou de repente, eles parecem que brotam do nada, e começou:


- EIS QUE VOS É CHEGADO O REINO DOS CÉUS! A-LE-LÚ-I-ÁÁÁÁ!!! O SENHOR USA A BOCA DESSE HUMILDE SERVO PRA DEIXAR UMA MENSAGEM DE SALVAÇÃO NESSA HORA. Ô, GLÓRIA!!!


O resto você já deve imaginar: quase meia hora de gritos, e meio mundo de gente, dentro do ônibus, condenada ao inferno se não atendessem ao chamado do irmão que ali estava. Na hora que ele perguntou quem aceitava a salvação que levantasse a mão para o céu, eu até tentei levantar a minha, pois qualquer coisa que me salvasse daquele lugar eu abraçaria, mas era impossível levantar a mão, pois eu estava imobilizado sem poder coçar o nariz se quisesse. O único que levantou a mão foi um cara com jeito de quem tomou umas duas. O irmão perguntou se ele aceitava a salvação e o bebum respondeu entre soluços:


- Só se for (ic) com limão e açúcar.


A gargalhada dentro do ônibus foi geral. Até o irmão deu uma risadinha meio sem graça, mas logo se aprumou e continuou sua pregação. Quando percebeu que daquele mato não ia sair coelho, ele encerrou o discursso e se sentou de volta no mesmo lugar como se nada tivesse acontecido. Nessa hora, a velha sonolenta da buzanfa grande acordou, mas acordou por cinco segundos, tempo suficiente pra eu me reaprumar. Mas o espaço era mínimo e não consegui mudar muita coisa.


Naquela altura do campeonato, eu já estava entregue a situação. Não tinha mais nada a fazer. Então era esperar chegar no meu ponto e ir pra casa. Mas ainda, antes de terminar a viagem, depois de tudo que já havia acontecido, eis que começa a chover. Chover não, uns pingos que não matariam ninguém, mas foi o suficiente pra fecharem todas as janelas do buzú. E aí, meu amigo, o mau cheiro subiu. Uma mistura de cc com chulé, misturado com creme de cabelo, mau hálito, perfume barato, roupa molhada, desodorante vencido e, pra acabar de completar, a velha da buzanfa gigante, dormindo, soltou um pum. E eu não podia nem me mexer e, apesar de ter sentado do lado da janela, foi naquela parte que só tem o vidro, a janela mesmo ficava no banco de quem estava sentado na minha frente e no banco de quem estava atrás. Ou seja, eu tive que aspirar todo aquele torpedo que a velha deixou de presente pra mim.

Depois de quase duas horas de aperto, finalmente a viagem estava chegando ao fim. A velha parecia que tinha um despertador, no ponto dela ela acordou certinho e o ponto dela era o mesmo que o meu. Só que como o ônibus estava muito cheio a gente só conseguiu descer dois pontos depois. Ainda voltamos andando. Pelo menos deu tempo de vir batendo um papo com ela e diminuir minha raiva já que descobri que a velha da buzanfa grande,  picada pela Tsé tsé, é até gente boa e de bom papo - quando está acordada.


O carro ficou bom três dias depois. Fui buscar o carro, mas fui de carona com um amigo. De ônibus, Deus queira que nunca mais eu precise pegar.



*FUI!




*Mas vou de taxi. Eu e a Angélica.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pesadelão!



AAAAHHHHHHHHHH!!!

Três e quinze da madrugada e acordo assustado com um grito terrível. Ainda tateando, consigo ligar o abajur e vejo minha mulher sentada na cama, toda molhada de suor, pálida e tremendo.

- O que houve, Lindinha? - pergunto preocupado.

- Tive um, um, um... pesadelo horrível. - Ela fala com voz trêmula.

- Que pesadelo foi esse?

- Uma mão... um mamão eeee... um anão.

- Hein?!

- É. É isso mesmo. Era uma mão e um mamão e um anão.

- Calma, foi só um pesadelo. Agora vá dormir.

- Não consigo. Foi muito assustador.

- Tá vendo o que dá encher a barriga de miojo com ovo frito  e cerveja antes de dormir?

- Pôxa! Eu preciso de um abraço.

- Eu te dou um abraço e a gente vai dormir. Não precisa ficar assustada só porque sonhou com duas mãos e um anão.

- Não eram duas mãos. Eram uma mão e um mamão e um anão.

- Ah, não. Um anão e dois mamões?

- NÃO! Ela grita já chateada - UM ANÃO, UMA MÃO E UM MAMÃO!

- Lindinha, eu estou com sono e esse papo cacofônico tá começando a ficar cabeça demais pra mim. Boa noite.

- Não. Espera. Eu preciso contar. Preciso desabafar.

Um tanto contrariado, mas eu me sento na cama pra ouvir o desabafo da minha mulher. Estou cansado, mas fico ali esperando ela contar sobre esse sonho maluco.

- Eu vi um mamão em cima de uma mão de um anão.

- O anão era mamão e tinha um mamão em cima dele? Mas ele era um mamão no sentido de fruta mesmo ou mamão no sentido de ser um pamonha?

- Pamonha, Luciano? Pelo amor de Deus! O anão era um anão mesmo. A mão era uma mão e o mamão era um mamão. Qual a dificuldade nisso?

- A mão era o que, mesmo?

- Luciano, só me ouve, por favor! - Continuei ouvindo ela falar, mas comecei a pensar que agora, com certeza, minha mulher tinha pirado de vez. Eu teria que interná-la. Juliano Moreira, Sanatório São Paulo, fiquei ali matutando pra onde eu a levaria. - Era um ma-mão, entendeu, porra?

- Entendi, entendi. - Louco e cliente a gente nunca contraria. Eles têm razão. Sempre.

- Um mamão, fruta.

- E tem mamão verdura, amor?

- CALA A BOCA! Que coisa. - e continua: - Em cima de uma mão - ela fala apontando pra própria mão.

- Entendi, entendi.

- De um anão. - ela levanta a mão à meia altura me mostrando o tamanho do anão.

- Ahhh, agora eu entendi, amor. Sim e daí?

- Daí que o anão me oferecia o mamão e...

- Ah, não! Espera aí! O anão segurava um mamão com uma mão e a outra mão ele te oferecia? Você está tendo sonhos eróticos aqui do meu lado?

- Ele não me oferecia a mão, idiota, e sim o mamão.

- Porra! Eu acho que estou ficando maluco também.

- Como assim, maluco também? Você acha que estou louca?

- Eu sempre desconfiei, mas agora estou tendo certeza.

- Insensível. Grosso.

- Desculpe. Continue. Mas por que ele não oferecia uma maçã como um dos anões da Branca de Neve?

- Branca de Neve realmente tinha sete anões ao seu lado, mas quem ofereceu a maçã foi a bruxa - ela me corrigiu.

- Ok. Continue seu sonho.

- Eu perguntei pra o anão: Qual é o seu nome? E ele respondeu: É Lon.

- Elon? Um anão chamado Elon. Sei.

- Não é Elon é só Lon.

- Ah, Solon.

- Não, seu burro, é LON, LON.

- Elonlon? Porra, que nome esquisito.

- É SÓ LON, LON, QUE DIABO!

- Tá, desculpe. Eu agora entendi o nome do anão. Solonlon

- Luciano, sinceramente, a sua estupidez e ignorância é o que acaba com a minha beleza. Boa noite. Imbecil insensível.

- Vai dormir, vai. Vai lá sonhar que tá comendo mamão na mão do anão Solonlon, Elonlon, ou eu sei lá que porra. Traidora!

- Idiota!

- Louca!

- Pateta!

- Comedora de mamão!

Fomos dormir de costas um pra o outro.

Fui dormir, mas de manhã fiquei intrigado. Passei a noite toda sonhando com a tal propaganda do cervejão, o anão e o mulherão. Sei não...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Armadilha pra patinho



Nem no meu aniversário eu me livro de confusão.
Ô, vida ingrata, sô!

Era o dia do meu aniversário, mas como a data caiu em uma quinta-feira, resolvi que não comemoraria. Eu ia esperar o final de semana pra fazer um almoço só pra alguns familiares. Recebi meus parabéns, beijos e abraços da minha mulher, ligações de meus irmãos e de meus pais com as felicitações e recomendações de minha mãe.

- Se cuide. Se alimente porque achei você meio magrinho quando teve aqui em casa da última vez. Diz pra sua mulher cuidar melhor de você...

- Tá bom, mãe, tá bom.

- Porque eu não tive filho pra ser cuidado de qualquer jeito e...

- Tá bom, mãe! Tá bom, tá bom.

Mãe é mãe. Fazer o quê?!

Fui trabalhar como em qualquer outro dia até as oito horas da noite quando minha mulher, a Lindinha, me liga e pede pra que eu vá pra casa porque queria ficar um pouco comigo, pois era meu aniversário e ela havia feito uma janta bacana, etc e tal. Como sei que ela cozinha divinamente e provavelmente devia ter feito alguma coisa especial, nem pensei duas vezes, me mandei.

- Amor, - disse ela ainda - quando estiver próximo de chegar ligue pra avisar.

- Avisar pra quê?

- Pra deixar tudo prontinho pra quando você chegar.

Concordei e segui.

Enquanto eu ia pra casa passou por mim um carro todo iluminado, todo colorido, cheio de bolas de aniversário, piscando na frente, no lado, no fundo, neon pra todo canto... Era um daqueles diabos de carros de mensagens.

Existe entre mim e minha mulher um contrato imaginário que jamais deve ser quebrado. Nesse contrato reza que em hipótese alguma ela contratará um carro de mensagens pra mim. Nem em festa de aniversário, nem de casamento, formatura, batizado, chá de bebê, nem se o Bahia for campeão mundial. Só existe uma exceção em caso de morte de sogra. Aí pode chamar carro de mensagens, banda e coreógrafos.

O carro passou e eu ali indo pra casa todo feliz, afinal de contas eu ia ganhar um jantar especial de minha amada.

O carro dobrava uma rua à esquerda e eu também. Ele subia uma ladeira e eu ali, atrás dele, subindo junto. Ele virou à direita e eu seguindo junto com ele. Ficava imaginando quem seria o pobre coitado, ou a pobre coitada que iria sofrer ouvindo aquelas musiquinhas ridículas com mensagens cafonas. Mensagens tão cafonas quanto falar cafona.

Liguei avisando que estava perto de casa.

- Já? Chegou rápido. Então, mô, compra um refrigerante.

Parei pra comprar o refrigerante e ainda vi aquele trio elétrico de baile gay subindo a ladeira.

Entrei pelo portão do condomínio.

- Parabéns, seu Luciano - me falou, entusiamado, o porteiro.

- Obrigado, obrigado. - respondo sem entender como ele descobriu que era o meu aniversário. Mas fiquei sem entender por pouco tempo.

Não é que quando eu chego na porta do meu prédio estava lá o demônio colorido e neonizado - o carro de mensagens? No portão do prédio, em pé, estavam: minha mulher, meu filho, meus cinco gatos - SIM! Cinco gatos - minha cadela cega e doida - SIM! Cinco gatos e uma cadela cega e doida - e uma mulher vestida de, sei lá, acho que era chapeuzinho vermelho.

Meu coração gelou. Senti meu rosto queimando, ardendo. Minha pressão caiu, pensei que ia desmaiar. O meu primeiro pensamento foi o de não descer do carro, fazer a manobra e me picar dalí, mas quando meu carro chegou o camarada que dirigia a viatura colorida maldita, soltou uns rojões e... PÁÁÁÁÁÁ! PÁ, PÁ, PÁ! PÁÁÁÁÁÁ! Chamou a atenção de mais de duas dúzias de crianças que estavam dentro do condomínio. Não demorou mais de um minuto e meio pra eles estarem todos ao redor do carro e de mim que, a essa altura, já estava ali em pé com cara de "socorro, meu Deus".

Só conseguia pensar na quebra de contrato da minha mulher. Como ela pode fazer isso comigo? E o pior é que como o contrato era imaginário, eu não tinha como entrar com ação pra receber meus direitos por rescisão. Na verdade não existia nem claúsula falando sobre multa por rescisão. Na verdade nem existia contrato.

Depois de soltar mais de três mil rojões (filho da puta zoadento), a chapeuzinho vermelho, dançarina de flamenco, sei lá, começou a falar com aquela voz esgarniçada enquanto ao fundo ouvia-se a música "Parabéns da Xuxa".

(Hoje vai ser uma festa, bolo e guaraná, muito doce pra você...)
- Cadê o aniversariante? Vamos chamar ele, gente? Lu-ci-a-no! Lu-ci-a-no! Lu-ci-a-no... Gritava ela e as mais de cinquenta pessoas que agora se amontoavam ali. (...é o seu aniversário...)

Minha mulher (cara de pau, miserável, desgraçada, quebradora de contrato) estava lá com um sorriso de lata de orelha a orelha, dando pulinhos, batendo palmas e gritando meu nome também. E eu retado da vida, mas sorrindo pra disfarçar. Sorriso hipócrita, mas sorrindo. Sorriso amarelo, mas sorrindo. Sorriso sem graça, mas sorrindo.

A chapéuzinho vermelho continuou falando igual atendente de "telemarketing"

- Luciano, - ela fala olhando pra mim - nós vamos estar passando uma mensagem pra festejar o seu aniversário e depois - agora fala olhando pra todos os lados - vamos estar dando a oportunidade de alguns de vocês virem deixar suas mensagens para o aniversariante, ok, gente!?

Já mais tranquilo, fiquei ouvindo a mensagem gravada por um locutor qualquer. A mensagem pelo menos era bonitinha. Mentira, a mensagem era H-O-R-R-Í-V-E-L!!! Mas aguentei firme até o fim.

Mais fogos: PÁÁÁÁÁÁÁ! PÁ, PÁ, PÁ! BUUMMMMM!!! e a chapéuzinho vermelho, a mestre de cerimônias vestida de espanhola, sei lá, chama alguém pra deixar uma mensagem.

Vi quando minha mulher estava andando em direção ao carro pra pegar o microfone, só que, do nada, apareceu uma velha, sei lá de onde, com uma bíblia na mão e bafou o microfone da mão da pobre garota vestida de rubro. Minha mulher quando viu que perdeu a parada veio e ficou do meu lado. (Quase aproveito a oportunidade pra esganar ela ali em público, mas mantive meu sorriso hipócrita e fiquei alí do ladinho dela).

- Quero aproveitar a oportunidade - começou a velha - pra deixar uma mensagem do Senhor pra o aniversariante e pra todos vocês.

Silêncio total. Até a música que estava tocando de fundo foi cortada pra que todos pudessem ouvir melhor a mensagem divina. E ela continuou:

Deus manda dizer que ele vai voltar e muitos vão estar festejando aniversário e fazendo festas naquele dia e vão ser pegos de surpresa, amém, aleluia! E que as almas dos pecadores  que não estiverem na comunhão, vão pra o fogo que não apaga. Lá vai ter dor e ranger de dentes. Digam glória a Deus, irmãos!

Ainda bem que eu não quis nada daquela festa que estava acontecendo ali. Acho que não vou pra o inferno, mas a minha mulher eu não sei.

A velha agora olhando pra mim começa a falar. Falar não, gritar histericamente:

- O SENHOR, A-LE-LU-I-ÁÁÁ, TE DIZ QUE VOCÊ É UM INSTRUMENTO NAS MÃOS DELE. MAS TEM UMA MULHER NA SUA VIDA, ÔÔÔÔÔÔ, GLÓÓÓÓRIAAAA! QUE ESTÁ TE ATRAPALHANDO...

Não sei de que mulher a velha falava, mas olhei pra minha mulher com a minha pior cara de mal e ela olhando pra mim com a cara mais feliz do mundo. Atrapalhar minha vida não, mas meu aniversário ela conseguiu bagunçar todo.

De repente a velha veio em minha direção, botou a mão na minha cabeça e começou a gritar:

- SÁI DELE, ESPÍRITO RUIM. SÁÁÁÁIIII DEMÔNIOOOOO!!!

Eu não dei uma rasteira naquela velha porque aprendi a respeitar os mais velhos. E a velha lá com a mão na minha cabeça e me empurrando pra trás e chamando o demônio no meu ouvido aos berros. Achei até que ele vinha. Era só o que faltava chegar naquele aniversário. E minha mulher do meu lado caindo na gargalhada.

Fiz um sinal pra menina, a garota vestida de chapeuzinho vermelho, tomar o microfone da mão daquela doida. Quando ela encostou, a velha deu a doida de vez e começou a gritar:

SÁI PRA LÁ, POMBA GIRA DOS INFERNOS. CÊ TÁ AMARRADA, DIABA! VAI PRAS PROFUNDEZAS DE ONDE VOCÊ VEIO. TÁ AMARRADO! TÁ AMARRADO!

Meu aniversário que já não estava bom ficou ainda pior e mais constrangedor. Quando olhei pra o lado, Lindinha estava no chão passando mal com o ataque de riso que teve. Três dos meus cinco gatos fugiram. Minha cachorra cega e doida agarrou no vestido da pomba gira, quer dizer, chapeuzinho vermelho e quase deixa a garota nua o que fez a velha gritar ainda mais alto:

- TÁ AMARRADO, ESPÍRITO DE PROSTITUIÇÃO!!!

O maluco do motorista do carro de som de entrar no carro e se mandar dali, ainda ficou soltando fogos. Agora eram coloridos e apitavam.

Corri pra minha casa, me tranquei e só saí de lá três dias depois. Ainda estava envergonhado.

Fiquei sem falar com minha mulher por quatro dias. Não somente pela mico que ela me fez pagar, mas principalmente porque ela mentiu. Não fez jantar nenhum. Era só uma armadilha pra o patinho cair.

Carro de mensagens, por favor, nunca mais.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Rosa Nonatto - Linda e talentosa


Amigos,

hoje ao invés de um texto eu vou postar um vídeo de uma das cantoras de samba mais talentosas dessa Bahia - Rosa Nonatto - que além de talentosa é linda, cheia de rebolado e, por acaso, é a minha querida esposa.


Esse show foi apresentado na Praça Municipal no dia do samba. Foi maravilhoso.


Espero que vocês curtam e gravem este nome:

ROSA NONATTO


Ainda esta semana eu trago um texto cheio de humor pra vocês.


Valeu!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Eu, cidadão do mundo


Taxistas de Salvador, sempre deixando os turistas com uma boa impressão da nossa cidade.

Se liguem na história.

Sou o primeiro carro do ponto. A central me chama pra passar coordenadas de uma corrida:

- Carro 077, copia a central?

- Positivo, central - respondo.

- 077, adiante para o aeroporto. Quando chegar lá informe para que a central possa passar o restante das coordenadas. - A central mandou, eu adiantei.

Cheguei rápido no aeroporto. A Paralela estava livre. Ótimo.

Tentei chamar a central, mas ela não me copiava:

- 077. A central copia o 077? - não obtive nenhuma resposta.

Procurei um lugar pra estacionar o carro e fui para o portão de desembarque. Chegando no desembarque liguei para a central para anotar as coordenadas.

- Pocotó taxi, bom dia!

- Alô, central, é o 077. Quem é o cliente aqui no aeroporto?

- 077, no portão de desembarque, senhor Washington, a 01:15h. O senhor escreva em uma placa o nome do cliente pra que ele possa te localizar. É no portão de desembar... - Quando a central ia me passar o restante das coordenadas, meus créditos acabaram. Malditos créditos que só acabam na hora errada. O pior é que tinha deixado minha carteira no carro. Fiquei sem crédito, sem poder ligar e sem o restante das informações. Mas eu tinha o básico: sabia o nome do passageiro e a hora que ele ia chegar. Olhei para o relógio e vi que já era 01:25h, ou seja, se não teve nenhum atraso, ele já havia chegado.

Corro num balcão qualquer daqueles que ficam lá no aeroporto, de aluguel de carro, serviço de taxi e outros mais, e peço uma folha de papel e uma caneta. Começo a escrever o nome do camarada. O problema é que agora eu sei como escreve, mas no dia eu não sabia escrever Washington. Nem sabia escrever e nem tinha a ajuda do pai dos burros modernos: Mister Google. Também não ia de jeito nenhum pagar o mico de perguntar a alguém no aeroporto como que se escreve Washington. Homem que é homem nunca deixa transparecer que não sabe uma coisa. Nunca pergunta onde fica uma rua, nunca olha manual de instruções e nunca vai pedir pra que ensinem a ele como se escreve Washington. Sendo assim, comecei a soletrar pra mim mesmo e a escrever na folha de papel:

WÓSCHITOM

Pelo menos eu sabia que começava com "W".

O que é que passa na cabeça dessas mães que colocam esses nomes complicados nos filhos? Ficam traumatizando os coitados. Tive um amigo de infância que todos conheciam ele por Dal. A família chamava ele de Dal. Os amigos chamavam ele de Dal. Todos chamavam ele de Dal. Ninguém sabia o verdadeiro nome de Dal. Ele não falava pra ninguém mesmo. Até que um dia a carteira de identidade de Dal caiu no chão, ele não viu e eu peguei. Lá estava o nome do rapaz:

WANDERCOOCK LUIZ LIMA DOS SANTOS.

Coitado. Ele tinha vergonha do nome e vergonha porque não sabia escrever o próprio nome. Quando eu conheci Dal, ele tinha uns seis anos de idade e até os dezoito fomos muito amigos. Só que ele mudou de cidade e nunca mais eu o vi. Engraçado foi ele ter mudado de cidade, coincidentemente, duas semanas depois de descobrirmos o nome dele. 

Mas, voltando pra o aeroporto...

Fiquei segurando aquele pedaço de papel por pelo menos uns cinquenta minutos e nada de aparecer ninguém. O saguão do aeroporto vazio e nada do tal de Washington chegar. Estava já pra desistir quando olhei e vi sentado num banco próximo ao portão de desembarque internacional, um casal com um garotinho. Pareciam que também estavam procurando alguém. Tentei a última cartada.

- Olá! O senhor é seu Washington? Perguntei meio sem jeito e apontando para o papel onde escrevi o nome do cara, quer dizer, tentei escrever.

- Washington? Oh, yes, yes! - o cara respondeu com entusiasmo, apertando a minha mão e falando inglês. Pelo menos não era um Washington baiano, cearense, sergipano, brasileiro. Era um Washington original dos states. Mas aí é que estava o problema: Um Washington brasileiro falaria a minha a língua, mas um Washington original dos states...

Pra começar, como dizer ao cara que era pra ele esperar enquanto eu ia buscar o carro? Fiz um gesto com a mão, como um guarda de trânsito quando dá ordem pra que os carros parem e comecei a falar alto e separando as sílabas como se o cara fosse um lerdo, um doente mental ou qualquer coisa assim.

- EU VOOOU, VOUUU,  BUS-CARRR O CÁÁÁR-ROOOOO, CÁÁÁR-ROOOO. FIII-QUEEE AAAA-QUIIII, AA-QUIIII!. - acho que o fato de falar e fazer gestos com a mão, fez com que ele entendesse o recado. Também, eu quase rasgo a camisa do rapaz forçando ele se sentar pra esperar.

Voltei com o carro, chamei ele, arrumei as malas do jeito que deu dentro do porta malas e no colo da mulher, do filho e dele mesmo. Eram malas demais. Agora eu tinha que saber pra onde eles iam. Como?!

A Getax (Gerência de Taxi de Salvador) junto com a prefeitura, vez por outra promovem cursos gratuitos de línguas para os taxistas. Mas sabe como é, né?! É aquele curso bem basicão. É bom dia, boa tarde, boa noite, como vai? Qual seu nome? Etc, etc. O trivial. O feijão com arroz, o papai e mamãe. Fiz um curso desses certa feita. E saí da sala de aula realmente acreditando que eu podia. Como diria "meu amigo" Barack: "YES, WE CAN". O problema é que só surgiu a oportunidade de usar, na prática, esse inglês macarrônico agora, nesse episódio, dois anos e meio depois. Dois anos e meio são novecentos e doze dias e novecentos e doze dias são vinte uma mil oitocentas e oitenta e oito horas. É tempo suficiente pras informações não usadas irem pra o arquivo morto e do arquivo morto irem pra o lixo do cérebro. E assim depois que as frases do "BOOK ONE" foram pra o lixo do meu cérebro, é que precisei usar todo o meu conhecimento da língua britânica. Aí, "MEU BROTHER", lascou-se.

Tentei ser simpático puxando uma conversa com o cara:

- "Uóticio neime? - perguntei cheio de confiança. Mas a cara que o rapaz fez foi a mesma cara de quem é pego quando solta uma bufa. Aquela cara de: "HEIN, EU?! Perguntei mais uma vez, agora daquele jeito de quem está falando com um abilolado:

-UÓÓÓTICIÓ, UÓÓTICIÓ, NEIIIMIII? - O camarada olhou pra mulher, pra o filho, fez um gesto qualquer e falou:

- I want to go to a good hotel in Salvador. - Porra, fudeu! Só entendi Hotel Salvador.

UÓÓTI??? O senhor pode repetir? - falei assim em português mesmo, já começando a suar de nervoso, mas logo lembrei que ele era gringo e joguei:

- REPETEIXON, PLIS! - Não sei se ele entendeu, mas sei que ele repetiu. O que não quer dizer que adiantou alguma coisa, porque eu mais uma vez só entendi Hotel Salvador.

E agora, como explicar pra ele que o hotel Salvador tinha fechado? Tentei do meu jeito com o meu "imbromeichon":

- NO, NO! HOTEEEEEEEL SALVADOOOORRR OFI. GUEIIIIMEEEEEE ÔÔVÉÉÉÉÉÉ. ISTÓPIIIII. DÉÉÉÉÉÉÉ ÊNDIIIIII - Vendo que ainda o cara não conseguiu entender, tirei a minha última carta da manga:

- HOTÉÉÉÉLLL SALVADOOOORRR NA CHON, NA CHON!!!

Não adiantou.

Bom, tentei jogar  a responsabilidade pra cima dele. Ao invés de eu falar inglês, vou perguntar se ele fala português. Assim ele que se vire pra falar comigo.

- DU IÚ, DU IÚ, ISPIQUE PORTUGUÊS? - Mais uma vez o cara não entendeu nada do que eu disse. 

O único jeito que achei foi levá-lo até a porta do hotel Salvador pra que ele pudesse ver que o hotel já não funcionava mais. Fiquei caladinho. Só o garoto que de vez em quando falava:

- Dad, i'm hungry.

-Calm down, son. - ele respondia

Cheguei em Ondina e apontei o hotel fechado. Ele com cara de quem não entendia nada e eu suando sem saber o que fazer com aquela família no meu carro.

- Only want to go to a good hotel.

Continuei sem entender. Alí, diante daquele hotel, antes tão imponente e agora fechado, eu na frente daquele cara sem entender patativas do que ele falava, me fazia pensar como foi a galera toda lá diante da torre de Babel. Deve ter sido um tal de "fuck you", filho da puta, sem fim. Arrastei o carro e decidi, por conta própria, que ia levá-los a qualquer hotel por ali mesmo. E foi o que fiz. Ainda ouvi a mulher dizendo:

- We being kidnapped?

Não sei o que ela falou, mas acho que se sentia aliviada por eu estar tirando eles dali e levando pra um lugar seguro em que pudessem descansar.

Parei na porta de um grande hotel aqui de Salvador. Que alegria eu vi estampada no rosto daquela família. A mulher ficou encantada com a vista para o mar que tinha no hotel (pelo menos eu acho que ficou. Era madrugada e não dava pra ver vista nenhuma). O camarada me pagou a corrida me agradecendo e dizendo cordialmente:

- You're crazy, but thanks.

Acho que ele falou que o hotel era incrível. E "tênquis" eu tô ligado que era ele dizendo: Obrigado!

- TÊNQUIU VERI MATI, SENHOR!

Fui pra casa feliz por cumprir o meu dever como cidadão e como taxista que tem obrigação de tratar bem o nosso turista.

Semana que vem estou entrando mais uma vez num curso de inglês gratuito de duas semanas. Agora, com um curso completo de duas semanas, ninguém me segura. Vou ganhar o mundo.

"RASTA LA VISTA, BEIBI!"

sábado, 8 de janeiro de 2011

Os chiques e seus chiliques


Percebi que vocês gostam de histórias de casal. Foi assim com a história da loira azeda e foi assim com minha história de réveillon. Percebi também que vocês gostam de histórias em que eu me dou mal. Então, mesmo despelando, igual a passarinho quando troca as penas, por causa do sol que tomei no primeiro dia do ano, vou contar mais uma "história de amor". Segura essa.

Fila de taxi de um ex grande shopping de Salvador. Nenhum é igual a ele - todo cheio de puxadinhos. Quase duas horas de espera até que chega minha vez de sair. Um casal entra no carro. Era um casal jovem, por isso achei estranho quando ele se sentou na frente e ela no banco de trás. Geralmente casais jovens se sentam no banco de trás e vão numa pegação danada. Se o taxista deixar tem uns que querem fazer o vuco-vuco no carro mesmo. Fica mais barato porque não precisa pagar taxi e depois o motel. Paga só o taxi e adianta o lado ali mesmo. No meu não que o meu taxi é de família. Enfim, ele se sentou e disse pra onde ia:

- Graça, por favor, amigo.

Ela se sentou no banco de trás, como eu já disse, calada e de cara amarrada. Ela estava pra poucos amigos. Os dois estavam notoriamente brigados.

Vocês já sabem que eu falo mais do que a nega do leite e assim procurei puxar uma conversa. Aquela conversa bem básica, típica de taxista mala.

- Rapaz, tempo mudou de repente, né?

- É, mudou. Mas o senhor pode adiantar um pouco que eu estou com pressa? - O cara respondeu num tom baixo, porém firme. Tomei logo um toco pra deixar de ser besta e conversar menos. Fiquei calado então.

Passados uns cinco minutos de corrida funeralmente silenciosa, a jovem resolveu quebrar o silêncio:

- Pôxa! Você, né, Carlos? Você não tem respeito comigo não? Na minha frente, eu, sua própria mulher, e de flerte com outra... Como pode fazer isso comigo?

- Amor, eu não estava fazendo nada e você não vai brigar aqui na frente dos outros, né? - essa era a prova que eu precisava pra saber que o cara realmente tinha aprontado: Ele respondeu chamando a mulher de AMOR. Estava querendo enrolar a coitada. Esse aprontou com certeza.

Silêncio de novo.

Enquanto o silêncio pairava pelo carro eu pensava com meus botões: Gente fina é diferente mesmo. Olha como é uma briga de um casal chique, morador da Graça, um dos metros quadrados mais caros de Salvador. Ela se exasperou (porque rico se exaspera. Pobre tem chilique mesmo), mas ele conseguiu conter o desespero da mulher chamando-a de amor e falando baixo e educadamente. E assim continuamos o trajeto até a Graça.

Avenida ACM, Juraci Magalhães, Garibaldi... Já estava me preparando pra descer o Vale do Canela e subir o viaduto da Graça quando... O cara tomou a decisão mais errada daquele dia e, quiçá, da vida dele.

- Amigo, por favor, suba aqui a Federação, depois pegue ali pelo Campo Santo sentido Canela e suba a Graça. - Fiz tudo que ele pediu.

Novo silêncio.

Olhei pelo retrovisor e vi que a mulher agora enxugava elegantemente, com um lenço de seda, uma lágrima que teimava cair pelo cantinho do olho. Que diferença faz ter estirpe, ser de família tradicional, bem educada, fina, estudar em boas escolas... Até o enxugar de uma lágrima requer nobreza. Não era como aquelas mulheres moradoras de Periperi, Sussuarana, São Marcos, Caixa D'água, São Caetano, Cosme de Farias, Cabula, Brotas, cachoeiranas, feirenses, etc, etc e tal. Todos esses bairros e interiores com gente que não tem classe pra brigar. Gente que faz um escândalo danado, xinga, fala alto e quando chora puxa a blusa mesmo e assoa o nariz na camisa. Quando pensa que tem um pouco mais de classe, passa a manga da camisa no nariz e fala com a cara toda melecada. Uma nojeira só. Ela não. Chorava como uma diva do cinema. Uma Grace Kelly, Sofia Loren, Maureen Ohara, Bette Davis, Greta Garbo. Que fineza.

Subi a Federação e segui sentido Campo Santo. E foi bem em frente ao cemitério que a tragédia aconteceu.

Do Alto das Pombas saiu a piriguete com sua blusinha tomara que caia rosa fosforescente, seu shortinho jeans C-U-R-T-Í-S-S-I-M-O, um piercing no umbigo, uma tatuagem no cóccix escrito "Xandy, amor eterno", as pernas saradas - a desgraçada não tinha uma celulite e se tinha estrias ninguém sabe, ninguém viu. E tudo isso em cima de um salto ENORME, falando ao celular e com uma bolsa Louis Vuitton provavelmente comprada na mão dos "china" que também vendem tênis de "marca". Do rosto eu não sei dizer nada. Nem eu, nem ele olhamos pra cara da piriguete. Olhar pra cara pra quê?

Meu pescoço quase quebra (tomara que minha mulher não leia isso). Eu e o pobre coitado do rapaz que estava ali já murcho por ter aprontado com a esposa, fomos hipnotizados pelo movimento de vai e vem daquele quadril "pirigueteano". Primeiro foi apenas os olhos que seguiram atenciosamente o rebolado sinuoso. Depois os pescoços, juntos, como se fossemos praticantes de nado sincronizado, viraram para que pudéssemos ver melhor o caminhar daquela diaba que veio atazanar nossas vidas. E foi assim, de pescocinho virado e tudo que, de repente, eu vi a Greta Garbo da Graça se transformar em Dercy Gonçalves soteropolitana.

- FILHO DE UMA PUTA, GALINHA, CACHORRO, SAFADO DE UMA FIGA. VOCÊ NÃO TEM MULHER EM CASA NÃO, SEU MISERÁVEL? MINHA BOCETA NÃO LHE SATISFAZ, NÃO, SEU PORRA? - Gente, a mulher se transformou. Ela deu um tapa tão violento na cara do rapaz que eu acho que o pescoço dele entortou de vez.

Com o susto por causa dos gritos da mulher e do tapa que ela deu no coitadinho (preciso ser solidário com a raça), e por estar olhando ainda a piriguete do satanás, não vi que o carro da frente parou e bati no fundo de uma brasília velha. Desci do carro, a mulher desceu também xingando o camarada que só conseguia dizer:

- Mas, amor! Mas, amor... - Com a marca dos cinco dedos da mulher gravados no rosto.

Nisso já juntou uma roda. Apareceu gente de tudo quanto foi lado. Uns já gritavam que era pra mulher bater mesmo no cara. Do outro lado o dono da brasília veio tirar satisfação comigo me perguntando se eu estava cego. Não tinha como explicar pra ele que estava cego por causa de uma piriguete. Uma confusão total.

O pau rolou. Rolou mesmo. Descobri que a grã fina da Graça era boa de briga. Baixaria só vista em subúrbio, dessa vez sendo protagonizada por uma patricinha.

Quanto ao meu carro, acabei com a frente dele e a brasília velha do cara não teve nada. CARRO VELHO DURO DA PORRA!

Gente, grã fino também tem chilique e quebra o pau como qualquer um de nós. Mas o interessante é que... Eles xingam num português perfeito.

Fui!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ouçam o Pedro Bial





1º dia do ano... Aí é aquilo que todo mundo já sabe: Ressaca, cansaço e praia.


Chego cedo, ainda com cara de bêbado, pra poder aproveitar bastante o sol. Mas a luz do sol incomoda. O barulho incomoda. O vendedor de coco incomoda. O de picolé também. As crianças brincando de bola e correndo e jogando areia em cima de mim, incomodam. O cara vendendo queijo coalho com aquele troço em brasas quase queimando minhas pernas, incomoda. Tudo incomoda. Tento achar o cara que aluga cadeiras, mas não tem mais cadeiras pra alugar. E, se tivesse, a impressão que se tem é que não existe espaço na areia da praia pra colocar uma cadeira - gente por tudo quanto é lugar. Arranjo um cantinho milagrosamente esquecido pelos banhistas, estendo minha toalha e me deito. Bêbado. Tomei todas a madrugada toda. Apago. O sono me toma em fração de minutos. Acho que eram nove horas da manhã.

Segundo os especialistas, nove horas da manhã é a hora limite pra sair da praia com segurança, antes que os raios ultravioletas torrem você como um bife à milanesa. E, ainda assim, mesmo antes das nove, é necessário que você se proteja com bloqueador solar. Eu sei disso, tu sabes, o Pedro Bial sabe. Nós sabemos, vós sabeis, os especialistas sabem, mas dificilmente fazemos as coisas como devem ser feitas. Não ouvi os especialistas e nem o Pedro Bial. Esqueci de passar o protetor.

Me deitei, como disse, bêbado. Sem camisa e com uma sunguinha ridícula, muito parecida com a daquele cara que aparece na propaganda da cerveja com uma pochete do lado e dançando lambada. Peguei a primeira que achei quando cheguei em casa. - Minha mulher e a mania dela de não jogar nada fora. Essa sunga deve ter uns quinze anos. Nem cabia mais em mim, mas eu estava bêbado. Não sei como, mas ela entrou.

Barrigão pra cima. Foi assim que deitei e foi assim que dormi.

Seis horas de sono. Isso mesmo. Dormi das nove até as três horas da tarde. Aaaahhh!!! Acordei revigorado e descansado e renovado e, e, e... E todo estropiado, ardido, gratinado, queimado. Piscava os olhos e ardia o umbigo. O pior foi que na posição que eu deitei, de barrigão de "chops" pra cima, eu acordei. Ou seja, só torrei a parte da frente. Minhas costas, bunda, panturrilha, estavam amarelas como as mãos de quem solta um pum. Eu não conseguia nem mesmo me levantar do lugar, pois para levantar era preciso dobrar a barriga e isso ardiaaaaaaaaa. Pra acabar de completar eu estava com aquela sunga horrível e apertada. Só vim me dar conta daquilo quando o efeito do álcool passou um pouco, porque eu ainda estava um tanto bêbado, mas a sobriedade que vinha aos poucos me fazia entender que eu estava pagando o maior mico do ano e o ano tinha acabado de começar.

Consegui me levantar segurando as lágrimas. Não que eu não quisesse chorar, mas até as lágrimas ardiam meu rosto. Além do ardor do corpo todo queimado, meus testículos doíam. Quem mandou eu sair com uma sunga com numeração quatro vezes menor que o meu tamanho?

Quando já estou de pé, de olhos fechados, mãos levantadas, rendido à brisa do mar que refrescava a minha cara e minha barriga, ouço uma voz inocente e pueril gritando freneticamente:

- CUIDADO AÍ, TIO, COM A BOLA!!!

E assim, de olhos fechados e mãos erguidas, tomo uma puta de uma bolada que acerta a parte baixa da minha barriga e a parte alta das minhas coxas. Caio, quase desmaiado. A dor nos testículos, misturada a dor na barriga, que só quem tem testículos e já tomou uma bolada sabe do que estou falando, misturada a dor do corpo todo queimado, me fizeram esquecer que eu estava rodeado de gente numa praia lotada, jogar tudo pra cima e chorar feito uma criança. Chorei, chorei e chorei. Mas como eu ainda estava um tanto bêbado e estava rodeado de outros bêbados quase ninguém ligou. Só minha mulher que, comovida com a minha tão vexatória situação, me empurrava com as mãos em minhas costas, que era o único lugar do meu corpo que não doía ou ardia, para sairmos dalí e irmos embora. Eu só faltava gritar que queria a minha mãe. Não gritei de vergonha.

Chego no carro sem condição de dirigir. Cheguei na praia não sei nem como. Concluo que minha mulher, que dirige muito bem, diga-se de passagem, foi quem nos levou até ali, logo, ela nos conduzirá de volta pra casa.

Com muita dor ainda consigo me sentar no banco do carona. Só sentei uma banda da bunda porque a sunga apertada, a bolada nas "bolas" e o corpo todo ardido, me deixaram terrivelmente mal sem conseguir encontrar uma posição confortável. Minha querida esposa fecha a porta do carona com todo cuidado e vai pra o outro lado se sentar pra dirigir. Outro problema começa aí. Enquanto eu deitei na areia de barriga pra cima e dormi e tostei, ela deitou de bruços e, chapada como estava, apagou também. Queimou as costas toda e não podia sentar. Que situação deprimente, gente. Eu com a barriga e a cara vermelhas como um camarão e minha amada com a bunda e as costas em brasa.

Só chegamos em casa porque pegamos um taxi. Sim. taxista também paga taxi.

Agora vejam vocês a situação: Eu sentado no banco da frente com a toalha no banco do carro pra não molhar o banco do meu colega. E a sunga entrando na minha bunda e apertando meu saco e minha mulher deitada de bruços no banco traseiro, sem poder se sentar com as costas em carne viva.

Esse foi o primeiro dia do ano pra mim.

Meu consolo é saber que tenho mais 364 dias pela frente e duvido muito que eu consiga pagar um mico maior do que esse ainda esse ano.

Estamos aqui. Cheios de hipoglós até as pálpebras.

Feliz 2011!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Vem neném, vem!


"OLHA 2011 CHEGANDO AÍ, GEEEEEENTE!!!"

Novinho em folha,
brand-new
zero quilometro,
no lacre,
cheirando a bebê,
zero bala,
cabaço,
com selo de garantia,
fresquinho,
ainda no leite,
engatinhando,
virgem,
intacto,
brilhando,
piscando de novo...

E com as páginas em branco para que possamos escrever o que quisermos para nossas vidas.

Eu espero contar com todos vocês me dando a maior força em 2011. 

VALEU!!!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Loira azeda.

Numa segunda-feira monótona qualquer, num trecho do Dique do Tororó, vejo um cara dando sinal pra que eu parasse o taxi. Paro, feliz por estar prestes a fazer a primeira corrida daquela tarde quente e abafada.

- Boa tarde! - Digo cordialmente, abrindo a porta e puxando rapidamente o banco dianteiro um pouco pra trás pra que o cliente se sentasse e se sentisse mais bem acomodado.

- Siga aquele ônibus! Siga aquele ônibus! - O camarada já foi falando, sem nem responder meu boa tarde, enquanto colocava o cinto de segurança e já suava em bicas.

- Como??? - Perguntei ainda meio sem entender o que o cara quis dizer.

- Siga aquele ônibus, meu amigo! - O cara me respondeu num tom de: "Qualpartedosigaqueleonibusquevocênãoentendeupraeurepetir?"

Pensei comigo: Eu sempre quis ouvir essa frase. Quer dizer, não exatamente esta frase. Eu sempre vi nos filmes e novelas o cara entrar no táxi e dizer: Siga aquele carro! ou: Siga aquele automóvel! E o taxista sair a mil por hora atrás de uma Ferrari, um Mercedes, no mínimo uma limusine, mas nunca ouvi ninguém entrar num taxi pra dizer: SIGA AQUELE ÔNIBUS! Então descobri que a realidade é bem diferente. Eu não estava em um filme hollywoodiano e nem em uma novela global. Eu estava em Salvador, Bahia, Brasil. E aqui as restrições orçamentárias são grandes, sendo que, no máximo, se segue um ônibus mesmo. Sem contar que meu carro é 1.0, a gás e eu ainda liguei o ar condicionado pra ver se o cara suava menos. Não tem a mínima condição de seguir um fuscão 1600, quanto mais uma Ferrari, com um carro assim. Liguei o taxímetro, coloquei meus óculos escuros (não tem como você seguir alguém sem colocar óculos escuros. Dá um ar mais policial), passei o dorso da mão na boca, fiz uma cara de mal, engatei a primeira marcha, pisei com tudo no acelerador e...

- PÁÁÁÁÁRAAAAAA!!! Que eu esqueci o dinheiro. Porra! - O cara gritou e eu quase tenho um troço.

Parei. Na verdade nem saí do lugar. Só foi uma cantadinha de pneu. Ele desceu rápido, entrou em um bar, demorou um pouco, eu desliguei o carro pra esperar. Ele voltou uns cinco minutos depois, com uma cara de desespero típica das pessoas que estão atrasadas pra prova de vestibular quando os portões já estão fechando e elas estão no meio da rua correndo.
Quando vi que ele estava vindo tentei dar partida no carro que, sabe-se lá por que cargas d'água, não quis pegar de jeito nenhum. Olhei pra o pobre coitado, que a essa altura estava ainda mais suado do que antes, e disse quase que me desculpando:

- O carro não quer pegar, senhor.

O camarada me olhou com um jeito de quem queria me dar um soco e correu pra tentar pegar outro taxi. Ele só esqueceu a lei da oferta e procura. E no caso de taxi a lei é a seguinte: Quando você procura não existe oferta. Depois de mais de cinco minutos esperando um outro taxi que não aparecia, ele voltou pra meu carro.

- O carro já ficou bom, companheiro? - Ele me perguntou meio chateado. Meio não. INTEIRAMENTE, TOTALMENTE, COMPLETAMENTE, chateado.

- Ainda não, senhor. Só se a gente tentar empurrar. - Respondi tentando mostrar uma solução. Mesmo sabendo que o "a gente" empurrar significava: ELE empurrar.

- Porra! Não é possível uma coisa dessas. - O cara bradou retado da vida.

E lá foi ele empurrando o carro e eu tentando, tentando e nada do carro pegar. Até que quando ele, o carro, bem quis... pegou.
O rapaz entrou no carro duas vezes e meia mais retado, cinco vezes mais suado e dez vezes mais apressado.

- Corre, meu amigo, corre, que o ônibus já deve estar quase no fim de linha.

- Qual é o destino do ônibus que o senhor quer que eu siga? - Perguntei pra ver se podia pegar algum caminho mais rápido e alcançar o tal ônibus foragido.

Ele parou um pouco, levantou os olhos olhando pra o teto do carro como se procurasse a resposta por ali, voando como uma mosca. Depois olhou de novo pra mim e respondeu um tanto triste:

- Rapaz, eu não sei pra onde ele ia não.

- Bom, senhor, vamos fazer o seguinte: - Dei logo um jeito de arranjar uma solução por que eu não queria perder a primeira corrida daquela tarde antes mesmo dela começar.

- Vamos seguir pelo Dique até o final e ver se encontramos o ônibus aí pela frente. Salvador tem sempre muitos congestionamentos mesmo, então, quem sabe...

Ele fez uma cara de aprovação e eu segui a mil antes que ele desistisse. E se desistisse queria estar longe dali pra que ele não pudesse voltar andando. Daí ele teria que voltar comigo e eu ganharia aquela graninha da tarde, né?!

Corri o máximo que pude. Mas, se tratando de Salvador, especificamente, do Dique do Tororó, o máximo que se pode correr é quarenta a cinquenta quilometros por hora. Para, congestionamento, corre por cem metros. Para, sinal vermelho, anda mais cinquenta metros, freia, cachorro atravessando a pista. Para, sinal de novo, segue, para, segue...

- Desse jeito não vamos conseguir achar esse ônibus nunca - Ele disse já resignando-se.

- Calma que quando pegarmos a Bonocô fica mais fácil. - Respondi.

Bom, a curiosidade está no meu DNA e não demorei muito pra perguntar:

- O que foi que aconteceu, que o senhor está assim tão aflito atrás desse tal ônibus?

- Estou seguindo uma figura aí que quer me botar um chapéu de touro, entendeu, pai?

Não falei mais nada. Na verdade nem sabia o que falar ao cara naquele momento em que ele estava, quem sabe, a minutos de descobrir se era mesmo corno.

Nós não tínhamos a menor idéia de pra qual lado o ônibus tinha seguido. Só que a sorte estava a favor do perseguidor e contra a pobre alma perseguida.

E não é que assim que chegamos na Bonocô o camarada avistou o "alvo".  Lá estava uma loira maravilhosa aos beijos com um cara, digamos... meio desprovido de beleza. Pensei comigo - É, o cara foi trocado por outro e o outro ainda por cima é feio. Porra!

- Pode parar bem pertinho que eu vou pegar os dois no flagra. Cobre logo aqui sua corrida. Pode ficar com o troco. - Aí eu sorri, é claro.

Parei o carro bem próximo do casal que agora conversava distraidamente. O cara desceu e eu ali querendo ir embora e querendo ficar pra ver.

O anjinho dizia na minha orelha direita:

- Vai embora, meu filho, que isso é briga de casal e você não tem nada com isso.

E o capetinha do outro lado...

- Fica pra ver o miserê, mané. Vai perder, é?

Obedeci o capeta. Fiquei.

Dei uma distância de segurança, por que vai que tem tiroteio e as porras, mas distância suficiente pra ouvir tudo.

O cara chegou de fininho, sorrateiro como animal selvagem que prepara o bote. Eu que não tinha nada a ver com aquilo, estava com o coração quase saindo pela boca. O "predador" foi se aproximando, aproximando, e... Deu o bote falando aos berros:

- MAS, TOINHO, SUA LEBÁRA, VOCÊ ME TRAINDO COM ESSA PUTA DESSA LOIRA AZEDA, "SINHA NINSGRAÇA"? SE FOSSE UM BOFE A DOR SERIA MENOR!!!

Ele foi falando e descendo a mão pela cara do tal Toinho que, ainda atordoado com a chegada repentina do, acho eu, namorado, não teve reação e tomou o tapão pela cara, seguido de outro pelas costas e mais outro pela caixa dos peitos e mais outro e mais outro. A loira quando viu o cacete armado, se picou batendo o calcanhar na bunda de tão rápido. Eu tratei de me mandar dali também sem entender exatamente o que aconteceu, ou melhor, entendi tudo. Confesso que ainda procurei a loira pra dar uma carona, apenas uma carona sem segundas intenções, acreditem. Gente, acredite na minha mais pura vontade de ajudar uma alma desesperada que, coincidentemente, apenas coincidentemente, era loira e linda. Mas a doida, na velocidade que saiu correndo, já devia estar lá na paralela e o trânsito de Salvador não me permite chegar na paralela de forma tão rápida.

E assim foi a tarde daquela segunda-feira quase monótona.

Ah! A loira foi encontrada dois dias depois quase lá em Aracajú. Toda borrada.

Quanto ao casal eu não tive nenhuma notícia. Esqueci de assistir o "No Alvo" do dia seguinte.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

SEM EDUCAÇÃO E SEM NOÇÃO


Eu xingo todo mundo no trânsito. Xingo mesmo, sem dó.

Tomo uma fechada - Xingo.
O camarada está atrapalhando o fluir do trânsito - Xingo.
Está no celular ziguezagueando no meio da rua - Xingo.
Fica colado na traseira do meu carro - Xingo.

Xingo porque é mulher.
Xingo porque é velho.
Xingo porque é novo.
Xingo porque é playboy.
Xingo porque é motoboy.

Xingo, xingo, xingo!

E toma-lhe:
"FÉLADAPUTAAAA",
"PÔÔÔRRAAAAAAAA"
"TOMAR NO REDONDO"
"CARÁLÉÉÉÓÓÓÓ"

Dou uma fechada - Xingo.
Estou atrasando o fluir do trânsito - Xingo.
Estou no celular ziguezagueando no meio da rua - Xingo.
Fico colado na traseira do outro carro - Xingo.

Porque é homem, xingo.
Porque é novo, xingo.
Porque é velho, xingo.
Porque é patricinha, xingo.
Porque é motogirl, xingo.

Mas xingo de vidro fechado e sem olhar pra o lado.
Somente eu mesmo consigo ouvir meus palavrões. Só eu, eu mesmo e minha pessoa.

Semana passada eu fui fechado por outro motorista e quase que perco o controle do carro. E aí, meu amigo... Eu xinguei aquele "FÉLADAPUTAAAAA" até umas horas (de vidros fechados, é claro). Só que o sinal fechou um pouco mais a frente e parei meu carro ao lado do dele. Então disse pra mim mesmo:

- Hoje eu vou procurar problema de verdade. Vou xingar esse Veado na cara dele.

Abri o vidro do carro com raiva, botei uma cara de mal, respirei fundo, olhei pra cara do camarada e... percebi que o cara era um policial fardado e de bigodão. Fodeu tudo. Tratei logo de tirar minha cara de zangadinho da mamãe e o máximo que falei pra ele foi:

- Bom dia, amigo, congestionamento chato retado, né?

O cara nem respondeu. Virou pra o outro lado como se eu nem existisse. Eu assobiei uma música qualquer inventada por mim mesmo pra disfarçar, fechei meu vidro, botei o ar condicionado no máximo pra ver se minha cara ardia menos e fiquei quietinho, quietinho. Mas só até a hora que o sinal abriu. Quando o sinal abriu... Eu esperei ele arrastar o carro primeiro, deixei ele se afastar, pelo menos, uns cem metros e aí, meu amigo... Ninguém me segurou.

FÉLADAPUTAAAAA!!!
VEADO DO BIGODE GRANDE!!!
CORNO DO CARÁLÉÉÉÓÓÓÓÓO!!!

Mas de vidro fechado e só pra mim mesmo que é bem mais seguro.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cascudos e cabeludos.

Dia desses fui convidado por uma amiga para comermos uns caranguejos num bar qualquer da orla de Salvador. Não sou tão fã assim de caranguejo, mas aceitei.

Nos sentamos, fizemos o pedido e esperamos. Conversamos um pouco sobre besteiras do dia a dia, rimos, contamos "causos", falamos da vida dos outros, essas coisas que todo mundo faz enquanto está em um restaurante esperando a comida chegar. Até que dez minutos depois chegou o garçom com um recipiente de barro, tipo uma caçarola, sei lá, não entendo nada de panelas, recipientes, caçarolas... Mas sei que os caranguejos vieram saindo fumaça ainda de quentes. Um outro vasilhame menor continha um pouco de pirão. Também vieram os pratos e uns tais martelos com umas tábuazinhas. Aí foi que começou o drama.

Eu estou acostumado a comer caranguejo quebrando nos dentes. Arranca uma perna do pobre coitado e depois abocanha, morde, prende nos dentes, chupa aquela carninha branca e macia e depois fica lá, de lado, só os restos de casquinhas de caranguejo pra se jogar fora. Mas naquele dia eu descobri que "gente coisa é outra chique", ou melhor, gente chique é outra coisa.

Ao lado de nossa mesa tinha um senhor de seus cinquenta e poucos anos, lendo uma revista, bebendo uma cerveja e comendo caranguejo. Pensei comigo: Não deve ser difícil. Olha como ele faz. O camarada não fazia o menor esforço pra quebrar a perna do caranguejo com aquele martelo. Era só pá! pá! pá! e pronto. Ele continuava lendo sua revista, comendo seu caranguejo e bebendo sua cerveja. Me animei. Depois de ficar olhando para os bichinhos ali dentro daquela panela por, sei lá, um minuto e meio, como se estivesse demonstrando toda a minha condolência pela suas mortes trágicas, coloquei um deles em meu prato, arranquei a perna mais grossa e cabeluda, segurei com a mão esquerda e com a mão direita segurei o martelinho. Levantei o martelo a meia altura, igual como vi o senhor da mesa ao lado fazendo, e comecei meu pá! pá! pá!

Porra, nem arranhou a pintura do caranguejo. Mas eu tentei de novo: pá! pá! pá! Nada. O caranguejo nem amassou. Enquanto isso minha colega de mesa estava lá parecendo um cachorro quando destrói um travesseiro na boca. Só faltava rosnar. As vezes parecia que ela estava rosnando, mas acho que era impressão minha. Sei é que ela nem falava, só devorava aquele negócio cheio de pernas e cabeludo. Decidi que iria aumentar a pressão pra cima daquele bicho e fui mais forte. PÁ! PÁ! PÁ! PÁ! PÁ! Eu agora dei cinco porradinhas e o desgraçado do caranguejo, por quem quase derramei algumas lágrimas quando vi chegar morto naquela panela, parecia estar rindo de mim lá no céu dos caranguejos.

Peguei raiva. Agora eu peguei ar. Isso não vai ficar assim não. Eu vou quebrar no pau esse caranguejo, agora. Pensei comigo mesmo. Levantei o martelo o mais alto que pude e... POU! POU! POU! POU! POU! Uma zoada retada, os outros clientes todos olhando pra mim, mas... eu consegui quebrar a porra da perna daquele caranguejo miserável. Quebrei, mas quebrei com tanta raiva que não consegui nem comer. As casquinhas se misturaram tanto com a carne que não deu pra separar. Viraram um mingau de casca e carne.
Enquanto isso o coroa do lado lia sua revista, bebericava sua cerveja e, pá! pá! pá! comia seu caranguejo na boa. Parecia até um lord inglês tomando o chá das cinco.

Tentei de novo. Não coloquei tanta força dessa vez, mas bati com vontade. POOUUUU!!! Foi uma só. Mas com tanta vontade que um pedaço de casca voou e acertou em cheio o olho de um dos garçons que passava com uma bandeja na mão pra entregar o pedido de outra mesa qualquer. O cara deu um grito meio abafado, se desequilibrou, derrubou a bandeja por cima de uma jovem que estava em uma mesa de frente pra minha, molhou a mulher toda de coca-cola com limão. Um furdúncio só. Fiquei na minha fazendo cara de "oquefoiqueaconteceu?" A mulher mandou chamar o gerente, alguns outros clientes reclamavam do barulho, eu estava morrendo de vergonha e minha amiga lá com a cara toda lambuzada e, ainda acho que ela estava, rosnando. A minha mesa, a essa altura, já estava totalmente tomada de cascas e restos de caranguejo pra todo lado. Parecíamos dois animais com comida espalhada por tudo que é canto. E o velhinho lá, lendo revista, bebericando sua cerveja e, pá! pá! pá! comendo caranguejo como se estivesse comendo uma lagosta num restaurante francês.

Aos trancos e barrancos conseguimos acabar com aquilo, mas a nossa reputação já tinha acabado desde o momento que pedimos aqueles troços cascudos e cabeludos.

Pedimos a conta e saímos de lá com a impressão de que todo mundo olhava pra gente e nos reprovava.

Pelo menos aprendi a lição: Nunca mais como caranguejo de martelinho.

Caranguejo só em casa triturando nos dentes, cuspindo as casquinhas e rodeado de conhecidos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Dia triste

Hoje, 12 de dezembro, perdi um colega de trabalho. Morreu na prática de seu único ofício - O taxi.

Pegou três marginais, dois homens e uma mulher.

Assalto anunciado, fatos não muito bem esclarecidos, um tiro no abdomem e, infelizmente, mais um para as estatísticas dos crimes dessa cidade violenta.

Sinto pelos familiares.
Sinto a perda de um amigo.
Sinto medo.
Sinto muito medo.

Que Deus nos proteja e alivie a dor dos familiares e amigos

domingo, 12 de dezembro de 2010

Essa vida de taxista...

- Bom Dia!
- Bom dia.
- Pra onde o senhor vai?
- Siga em frente, por favor.
Dois quarteirões depois...
- Aqui, aqui, aqui, era pra virar aqui à esquerda.
- Desculpe, mas o senhor me mandou seguir em frente.
- É, eu sei. Eu estou indo para o Comércio.
- O senhor tem algum trajeto de preferência?
- Escolha o melhor caminho aí.
Melhor caminho pra quem? Pra mim, o taxista,  ou pra ele, o cliente? O melhor caminho pra um taxista é o mais longo possível e sem congestionamento. Engana-se terrivelmente quem pensa que taxista gosta de pegar congestionamento pra que a corrida dê mais. Congestionamento só da mais cansaço. O bom é fazer a corrida o mais rápido possível e ficar livre pra fazer outra. O melhor caminho pra o cliente é o mais curto e sem congestionamento e, se possível, que todas as sinaleiras estejam abertas, que tenham batedores da polícia abrindo caminho pra ele passar, que o taxi tenha asas e o taximetro conte em c-â-â-â-â-m-e-e-e-e-r-a-a-a-a-a-l-e-e-e-e-n-n-t-a-a-a-a-a-a. Mas, ainda assim, insisto na pergunta:
- O senhor costuma ir sempre por qual trajeto?
- Eu vou sempre aqui pela Garibaldi, depois pego ali pela final da Vasco da Gama, Dique, subo o Vale de Nazaré, Túnel, Comércio.
Confesso que preferia ir pela Garibaldi, Vale do Canela, Contorno, Comércio. Mas ele está pagando, é o cliente e cliente tem sempre razão.
Final da Garibaldi e... congestionamento. Pegamos a Vasco da Gama e... congetionamento. Chegamos ao Dique do Tororó e CONGESTIONAMENTO. Já percebeu como o mundo fica mais lento na mesma proporção que você está mais apressado? E o taximetro só: tac, tac, tac, tac, tac. E o cliente a reclamar do trânsito de Salvador. A reclamar das autoridades que nada fazem pra melhorar as vias, Reclamar da Transalvador e seus agentes que só fazem atrapalhar. Reclamar das pessoas que compram carro sem parar. Reclamar que está atrasado. Reclamar do cara do carro da frente que está ao celular, reclama que o taximetro tá contando muito rápido. Reclama até a hora que o celular dele toca. Ufa! Cara chato. Mas cliente tem sempre razão.
Depois de quase uma hora de congestionamentos, reclamações, sinais fechados, onibus quebrado na parte mais estreita da via. Finalmente chegamos.
- Quanto deu a corrida?
- Trinta e quatro reais e sessenta e cinco centavos.
- PORRA!!! Tudo isso???
- É, senhor. É que o mês de dezembro a bandeira 2 é o dia todo.
- PORRA!!! Trinta e quatro paga?
- Paga, senhor. Trinta e cinco também.
Depois de contar umas moedas que estavam espalhadas pelo bolso da calça, ele me paga a corrida e desce resmungando umas coisas que não consigo ouvir direito.
Enfim... estou livre para a próxima corrida. Queira Deus que não seja mais um chato, porém, se for que pague sem reclamar. É horrível ter que aguentar passageiro reclamão.
Fica o conselho. rsrrsrsrsrsrsrsrsrsrsr

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Tem nada não, amor!

Tem nada não, amor. Deixa esses que não são amados pra lá. Não se pode comprar carinho e amor de ninguém. Não se exige ser amado. Ou é ou não é. Sem meio termo.

Tem nada não, amor. Deixa os rancorosos, os que sentem prazer no sofrimento alheio, seguir o próprio caminhos deles. O final, com certeza, não será dos melhores e antes deles chegarem no final do caminho ainda vão passar por você.

Tem nada não, amor. Eu estou aqui do seu lado e outros que também te amam sem nada lhe cobrar por isso.

Tem nada não, amor. Eu sei de sua capacidade e do seu talento. Perdem os que pensam que te fazem perder.

Tem nada não, amor. O sol se pôs. Mas ele nasce de novo amanhã cedinho.

Tem nada não, amor. Lágrimas derramadas, lágrimas enxugadas, lágrimas que regam a terra e fazem brotar esperança.

Tem nada não, amor. Joga pra cima, desencana, dá um grito, coloca pra fora, explode, expõe o mal que te aflige, dá um soco na mesa, fica furiosa, sai do prumo pelo menos uma vez. É bom pra relaxar.

Tem nada não, amor. A vida dá voltas e todos são abençoados e penalizados sem diferenças ou privilégios.

Tem nada não, amor. A hora da vingança vai chegar. E que se fodam os políticamente corretos que dizem que vingança é um sentimento mesquinho. Não tenha pena de quem quer te ver pelas costas. Sem essa de hipocrisia.

Tem nada não, amor. Eu te amo, você me ama. E isso, no momento, é o que mais importa.

Se o mundo vem de encontro à sua felicidade...
não se preocupe porque...
Tem nada não, amor, que possa ser mais forte que você.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Só quero você

Quero você pra sempre em minha vida.
 

Quero que vejam você em mim,
 

Quero que vejam a mim em você.
 

Quero fazer amor com você do nosso jeito - só nosso.
 

Quero beijar sua boca, morder levemente seus lábios.
 

Quero deixar seus cabelos desgrenhados.
 

Quero correr seu corpo todo com meus beijos.
 

Quero passar minhas mãos em suas coxas.
 

Quero que você segure minha mão e a ponha em lugares mais íntimos.
 

Quero que você roce seus seios em mim.
 

Quero encher nosso quarto de sussurros, gemidos.
 

Quero olhar nos seus olhos enquanto me encaixo em você.
 

Quero dançar no seu ritmo.

Quero que você dance no meu, rebole no meu, pule no meu.
 

Quero olhar pra você e te achar linda e sensual em toda e qualquer posição.
 

Quero ficar exausto de tanto te amar.
 

Quero te ver com aquela cara de felicidade dizendo que ama o nosso jeito de fazer amor.
 

Quero que você se deite ao meu lado e durma comigo o sono dos amantes, o sono dos amados.

EU AMO VOCÊ!
Só quero você.
E sou só seu.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Por que os sacanas se dão bem?

Que raça é essa chamada sacana? Ô bichinho pra ter sorte na vida. Nada lhe acontece. É animal feroz, demoníaco até. Ele ataca sem dó e seus dentes são afiados. Abocanha a presa indefesa e brinca com ela antes de devorá-la. Suas garras seguram firmes e não deixam o ser capturado escapar. Mastigam vitoriosos e pelo canto da boca escorre o sangue do infeliz encarcerado. Saciam-se da consciência alheia. Fartam-se em assediar moralmente quem nada lhes deve. E assim reinam absolutos na selva da vida.

Os sacanas, ao contrário de alguns outros animais selvagens, não estão em extinção. Na verdade nesse ponto eles estão mais pra insetos. São como uma praga. Estão em todos os lugares, castas, classes. Baratas, formigas, pernilongos, moscas em cima de ferida. Nojentos, asquerosos. E tal como uma praga, se multiplicam as dezenas, centenas, milhares, milhões... e sempre vencem. Os sacanas sempre vencem. Você pode até conseguir acabar com um, mas vão aparecer dez - DESGRAÇADOS, DESPEITADOS, DESAJUSTADOS!!! E se conseguir acabar com dez, aparecerão cem. - SEM VERGONHAS, SEM RESPEITO, SEM GRAÇA!!!

Os sacanas sempre vencem. Na luta do bem contra o mal, os sacanas sempre vencem. O pior é que nem sempre eles estão do lado do mal. (algumas pragas são necessárias para a perpetuação da cadeia social).

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A couraça de um guerreiro

Quem disse que guerreiros não choram?
Quem disse que são frios e sem sentimentos?

Choram. Como meninos, choram.
Mas nunca choram na frente do inimigo.
A eles não é dado esse privilégio de ver as lágrimas de um guerreiro.

Aos inimigos o rosto franzido, duro. A cara de mal.
Aos inimigos demonstrações de pura força e coragem.
Aos inimigos o punho cerrado, a espada, a lança, o escudo.
Aos inimigos o desprezo, o desdém...
Aos inimigos... o silêncio que despedaça corações.




Eu conheço uma guerreira das mais fortes que já vi.
E a sua armadura está pronta para o combate.
E a couraça que a protege é resistente.
Mas debaixo da couraça ainda existe uma mulher.

E eu conheço suas lágrimas,
e eu sei de suas dores,
e conheço suas fraquezas.
Mas só eu tenho esse privilégio porque eu luto a guerra dela.

E que bom que vejo suas lágrimas,
é a prova de que não sou inimigo.
Mas as lágrimas já secaram
mesmo que o coração esteja doído e magoado.
Ela nunca se abate. Ela nunca desiste.
Ela é guerreira. Das mais fortes que eu já vi.
E eu tenho o privilégio de ser o seu amigo.

TOQUE DAS ALMAS


E os fantasmas que me assombram?
São tantos e todos tem rosto, nome e datas
e, às vezes, assumem forma humana.
Mas na maior parte do tempo são monstros malígnos.

Me assustam quando o relógio marca meia noite
e não vão embora diante do raiar do sol.
eles me circundam o dia inteiro.
Malditos! Eu os odeio. Tenho pavor.

Eu faço minhas orações, preces, rezas,
tento exorcizá-los, expulsá-los.
Eles brincam com minha alma.
Não me deixam jamais.

Eu ouço suas vozes na madrugada.
Eles arrastam correntes.
Meu coração dispara, acelera...
Suo frio - TERROR, TERROR - MEDO

Eu sinto um nó na garganta e não consigo gritar.
Estou preso, agachado,
com as mãos sobre o rosto, gelado.
Eu ouço as batidas do meu coração
como se fossem rasgar meu peito.
Minha respiração ofegante,
minhas pernas tremem
olho para todos os lados - eles me cercam
A SOMBRA NOTURNA ESTÁ SOBRE MIM.

Meu Deus!
Meu Deus!
Deus!

Por favor, me ajuda.